Em entrevista Jornalista fala do descaso com a Política Cultural. “Lá fora há mais preocupação com os roubos contra arte”

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Em entrevista Jornalista fala do descaso com a Política Cultural. “Lá fora há mais preocupação com os roubos contra arte”

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Cristina Tardáguila, jornalista

Era Carnaval de 2006 e, no bairro de Santa Teresa, no Rio de Janeiro, o bloco Carmelitas se organizava para tomar as ruas no primeiro dia de folia. O Museu Chácara do Céu, que está ali localizado, encerraria o seu expediente mais cedo por conta do complicado trânsito na região. O espaço armazena um acervo de cerca de 22 mil peças e obras de arte acumuladas pelo empresário Raimundo Ottoni de Castro Maya (1894-1968), e pelos seus familiares, ao longo de muitos anos. Com apenas cinco visitantes no local, os três seguranças aguardavam o término do passeio para fechar o museu. De repente, quatro homens entram na Chácara, rendem os presentes e fazem o maior roubo de arte do País.

O museu perdeu, numa tacada só, cinco relevantes obras: dois trabalhos de Picasso, uma pintura do francês Claude Monet, um óleo sobre tela de Matisse e mais outro de Salvador Dalí. Somadas, elas valiam cerca de dez milhões de dólares. A jornalista carioca Cristina Tardáguila, que já passou pelas redações de veículos como a revista Piauí e o jornal O Globo, apresenta um robusto retrato desse evento no livro A Arte do Descaso: A História do Maior Roubo a Museu no Brasil (editora Intrínseca, 192 páginas, R$ 39,90). Numa pesquisa que durou cerca de cinco anos, a jornalista apresenta detalhes do descaso da política cultural brasileira e insere o leitor no cotidiano das suas investigações. Para A TARDE, ela conta como se interessou pelo tema, detalha alguns dos seus aprendizados em âmbito internacional e critica a maneira como o Ministério da Cultura cataloga o patrimônio público.

De onde surgiu o interesse de investigar o maior roubo de arte no País?

Tudo começou em 2011. Eu era repórter de cultura do jornal O Globo e tinha acabado de chegar. Antes de trabalhar lá, fui repórter da revista Piauí. A publicação tem, digamos assim, um estilo jornalístico que revisita casos esquecidos e gosta de recontar histórias que ficaram um pouco mal contadas na memória. Pensei: quais as histórias que estão abandonadas, esquecidas e têm relevância para o Brasil? Logo que cheguei no jornal, fiz um caderno de pautas com essa perspectiva. Como entrei em O Globo no mês de abril, o crime já tinha completado cinco anos em fevereiro. Não tinha mais o gancho da pauta, mas aquela coisa ficou me remoendo. Semanas depois, coincidentemente, a editora Intrínseca me convidou a integrar um grupo de jornalistas que ela queria ter como autores de não ficção. Eles me pediram sugestões de livros. Então, voltei para o meu caderno, que é onde guardo todas as pautas. Conversei muito com um grande amigo, o jornalista Luiz Fernando Vianna, e ele disse que a história sobre o museu Chácara do Céu renderia um livro ótimo. A editora amou logo de cara a ideia de investigar o maior roubo de arte do Brasil e que continua sem nenhuma solução.

Como você conduziu as pesquisas e os levantamentos jornalísticos para o livro?

Parti para a execução desse livro como se essa fosse a maior reportagem que fiz na minha vida. Usei as mesmas técnicas. Num primeiro momento, eu decidi ler tudo que já tinha saído. Consegui fazer um levantamento de todas reportagens publicadas sobre o roubo. Isso demorou algum tempo. Fiz um arquivo sobre aquilo que o público já sabe e a imprensa já deu. Então, parti para a história que não foi contada. Segui à Justiça Federal do Rio de Janeiro, solicitei o inquérito do caso e, para a minha surpresa, ele estava aberto. Continua até hoje. Então, pedi acesso ao juiz e xeroquei as mais de 700 páginas. No segundo momento dessa apuração, transformei todo o juridiquês do inquérito num arquivo de consumo próprio.

Você participou da conferência realizada pela Associação para Pesquisa de Crimes Contra a Arte (tradução livre para Association for Research Into Crimes Against Art) em 2013. O que você conseguiu absorver do encontro para sua produção jornalística?

É um luxo, hoje em dia no jornalismo, conseguir fazer uma apuração que englobe investimentos. Ao entrar no universo das investigações de roubos de arte em âmbito internacional, vi como o Brasil não leva isso a sério. O primeiro grande impacto é esse. Existe uma comunidade gigantesca, nascida em Roma, que reúne gente do mundo inteiro para analisar os crimes já ocorridos e tentando evitar que outros crimes se concretizem. É um universo de pessoas sérias e importantes, formado por representantes de museus, transportadoras de valores, seguradoras, etc. O Brasil, pelo menos até 2013, está ausente do grupo. Esse é um tema internacional, que reverbera em outros países, e o Brasil faz ouvido de mercador. Lá fora, estão mais preocupados com os roubos contra a arte, e o que isso gera, do que aqui dentro.

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O quadro La Danse, óleo sobre tela pintado por Picasso em 1956, foi a maior peça levada da Chácara do Céu (Foto: Editora Intrínseca l Divulgação)

 

E como o Brasil lida com essas pesquisas sobre os roubos?

No Brasil, temos sucessivos casos de roubos a obras de arte e ninguém nunca parou para estudar isso e ver o que significa. O Brasil não tem e não se importa em ter. A minha ida para a Itália, de alguma forma, preenche esse vazio. Queria muito que o livro fosse propositivo. Ele mostra alguns caminhos. Se nós quisermos fazer algo certo, temos exemplos.

O que esse livro revela sobre o modo como as políticas públicas encaram a arte?
Ele revela, de forma inegável, o descaso. A gente não sabe, por exemplo, onde estão as principais peças dos acervos públicos. E, não dispor dessas informações museológicas de alta qualidade, é gravíssimo. Isso se reflete na dificuldade de ação policial e judicial. Um dos grandes problemas que a polícia teve no caso do museu Chácara do Céu foi que, naquelas primeiras 24 horas, não havia, e não há até hoje, imagens das obras em alta resolução. Ou seja, o museu e o Ministério da Cultura não tinham fotografado as obras que integram o acervo de Castro Maya. A ausência das imagens dificulta enormemente o período após o roubo. Além do mais, as obras não estavam com toda sua ficha técnica preenchida com qualidade. Há uma sucessão de erros na política cultural brasileira em relação a museus.

Quais seriam os passos que o País deveria seguir para conduzir, com mais seriedade, as investigações sobre os roubos contra o patrimônio artístico e cultural de foro público?

Primeiro de tudo, nós precisamos desenvolver um levantamento de tudo que a gente tem. Para o coronel italiano Giovanni Pastore, ex-comandante dos Carabinieri e importante nome no mundo da investigação policial de roubo de arte, esse é o passo número um. Dá trabalho, mas é preciso fazer um levantamento de todas as peças que existem no patrimônio. Isso quer dizer: nome da obra, ano em que foi criada, nome do autor e dimensões dela. É uma espécie de censo do nosso patrimônio cultural. No segundo momento, que é mais utópico, é a decisão do que proteger. No mundo, existem mais coisas para serem protegidas do que pessoas capacitadas para proteção. Há grande discussão sobre quais são obras que merecem um esforço maior de vigilância. Giovanni Pastore sugere que, para esse tipo de decisão, sejam colhidas uma série de informações. Por exemplo: onde obras de arte estão sendo roubadas? Roubar uma televisão e um Picasso não é a mesma coisa. É preciso saber todas as obras que temos, o que queremos proteger e onde essa proteção falha. O Brasil nunca ter pensado nisso tudo, me causa desconforto.

A Tarde por Luis Fernando Lisboa| Foto: Leo Aversa l Divulgação