Lutador de karatê de 82 anos mostra exemplo de vida voltada para o esporte

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Lutador de karatê de 82 anos mostra exemplo de vida voltada para o esporte

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Com o karatê, tenho termos imensuráveis de aprendizado, e sigo com esse pensamento de fidelidade ao esporte”, garante seu Valberto | Foto: Rafael Martins | Ag. A TARDE

Vestindo um kimono e de óculos escuros, por conta do sol radiante de uma manhã de quase verão, seu Valberto Alcântara surge com um sorriso no rosto na entrada da Associação Atlética da Bahia, na Barra, onde orienta e acompanha o desenvolvimento dos seus pupilos nas artes marciais. Chegando à academia, tira os óculos e o chinelo e pisa no tatame. E ali, a mágica começa a acontecer. Durante o aquecimento, com uma sequência de golpes intercalados com chutes potentes em um saco de pancadas, aos 82 anos seu Valberto mostra que a idade é apenas um número, e uma boa alimentação associada a uma mente equilibrada o ajuda a manter a força no karatê.

“O segredo é a alimentação e trabalhar a cabeça. Eu não costumo mais festejar aniversário, porque eu não quero saber a idade que eu tenho. Isso depende muito da alimentação e como você se comporta. Eu me encontro com os amigos, tenho um prazer enorme de gostar de pessoas, converso com uns, abraço outros. Pra mim, é muito importante o convívio com pessoas. E algo que não abro mão, é o respeito. Respeito as posições, ideias, e as opiniões”.

Faixa preta 3º dan pela Federação Baiana de Karatê (FBK) e 4º dan pela academia Mugen Kaiy, do mestre Naoyuki Hirakawa, no Rio de Janeiro, ele segue à risca a rotina de treinamentos. Com a disciplina de um karate-ka, ele explica a rotina às segundas, quartas e sextas-feiras, de casa até a academia onde treina, na Associação Cultural e Esportiva Braskem (Aceb), no Costa Azul.

“Tenho alimentação balanceada, com auxílio da minha esposa, e então saio de casa às 17h. Moro em Brotas e, devido ao engarramento no Iguatemi, Tancredo Neves e Costa Azul, chegamos cedo na academia para ajudar nas aulas. Lá, avaliamos alunos para as ocasiões de exame de faixa, observamos os nossos atletas com deficiência para, na medida do possível, consertar para a hora da avaliação, além do treino. E então retorno para casa às 21h. Isso se repete nestes dias”.

Família Alcântara

Seu Valberto carrega consigo o sobrenome Alcântara, que é conhecido no meio esportivo. Como patriarca, ele inspirou os filhos e parentes a trilharem no caminho do karatê. Elsimar, o filho mais velho, inclusive já foi pentacampeão brasileiro. Seu Valberto conta como os Alcântara entendem o karatê, e garante que cada um sabe a importância do sobrenome que carrega. “Todos têm esse legado do prazer de gostar dessa arte. Entendem a participação que têm no esporte, e todos eles sabem da responsabilidade quando colocam um kimono e uma faixa na cintura.”

Atualmente, a família Alcântara conta com 11 faixas pretas, além de ter uma grande parte graduada em outras faixas coloridas. Nativos da Ilha de Mar Grande, os Alcântara administram a Associação Thayon de Esportes, fundada em 1994, com Carlos e Tairone Alcântara assumindo atualmente a direção da academia.

O esporte ultrapassou as barreiras genealógicas e uniu também as famílias Caribé, Rangel e Bastos, às quais seu Valberto se refere com gratidão e carinho. “Iniciei meus primeiros treinos com o professor Denilson Caribé de Castro [falecido em 1985], o ‘Patrono do Karatê no Brasil’. A partir disto, eu conheci outros professores e, desde então, nós acompanhamos as famílias Caribé, Bastos e Rangel lado a lado sempre. São várias famílias se formando no karatê da Bahia”.

Citando os lemas da arte marcial – “esforçar-se para a formação do caráter. Criar o intuito de esforço. Conter o espírito de agressão. E respeito acima de tudo” -, seu Valberto utiliza a história da família para deixar, no karatê baiano, um legado de violência zero. “Meus filhos foram criados no esporte, foram atletas de competição, mas nunca tiveram uma discussão na rua. Eu tenho essa idade mas nunca entrei numa delegacia, nem como testemunha. E é isso que quero deixar, exclusivamente a cordialidade também fora dos tatames”.

Passando a faixa

Seu Valberto atualmente assume a responsabilidade de ser o vice-presidente da Askaba. Com o cargo, ele exerce um trabalho voltado para crianças e jovens, a fim de treinar novos atletas e desenvolver talentos no karatê. “Eu faço o trabalho na associação sem fins lucrativos. Fico encarregado de acompanhar a equipe de examinadores, e o diretor técnico me convoca para treinar alguns atletas que precisam melhorar movimentos. Atuo como um técnico”.

Experiente e respeitado pelos alunos, ele aponta o choque de gerações, mas destaca a troca de conhecimento entre ambos. “Hoje, a dificuldade com as crianças é um pouco maior. Precisamos insistir mais porque os pais trabalham muito e as crianças não ficam com eles. É preciso um cuidado maior, pois a academia é um complemento do dever de casa. E isso é feito aqui”.

Quem garante a dedicação dele com o trabalho de desenvolvimento de atletas é Alexandra Azevedo, atleta faixa roxa pela Askaba. Alexandra ressalta a gratidão em relação ao ‘Mestre’ quando, há sete anos, recebeu um elogio dele após o primeiro exame de faixa. “Ouvir dele ‘vai em frente, continue’ foi muito gratificante. O exemplo dele é o que eu almejo, chegar aos 82 anos com esse espírito. Nunca cheguei na academia e vi ele cabisbaixo, sempre que vejo ele é dessa forma aí, alegre”.

Fã assumido de Durval Lelys e arriscado nas composições musicais, seu Valberto garante não ter nenhum problema de saúde. Ele diz ter apenas um acompanhamento médico mais rígido por conta da idade, e revela o segredo para, aos 82 anos, esbanjar saúde, carisma e uma vitalidade de dar inveja. “Eu sou uma pessoa que sempre busco ser feliz. Não preciso atrapalhar ou pisar nas pessoas para alcançar isso. Com o karatê, tenho termos imensuráveis do ganho de valores de aprendizado. E sigo com esse pensamento de fidelidade ao esporte”.

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Pregando o respeito e a não violência, seu Valberto deixa legado para novos atletas | Foto: Rafael Martins | Ag. A TARDE

Em 2006, seu Valberto, aos 68 anos, concedeu entrevista ao A TARDE e contou o início da sua trajetória, como conheceu o karatê e os motivos que o fizeram se manter no esporte.

A TARDE