Técnico do Bahia Roger Machado é homenageado pela Câmara de Salvador por lutar contra o racismo

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Técnico do Bahia Roger Machado é homenageado pela Câmara de Salvador por lutar contra o racismo

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A honraria foi proposta pela vereadora Aladilce Souza (PCdoB).

O treinador do Bahia, Roger Machado, foi homenageado pela Câmara de Salvador, na noite desta sexta-feira, 6, com a Medalha Zumbi dos Palmares. A honraria foi proposta pela vereadora Aladilce Souza (PCdoB). O técnico também receberia o título de Cidadão Soteropolitano, mas a entrega foi cancelada em decorrência da ausência justificada do autor da homenagem, o presidente da Casa, vereador Geraldo Júnior (SD).

De acordo com Aladilce, a medalha foi proposta por causa da contribuição do treinador no enfrentamento ao racismo e por sua representatividade no meio esportivo. O técnico ganhou notoriedade ao falar do racismo existente no país durante uma entrevista coletiva. “A estrutura social é racista. Nós precisamos sair da fase da negação de que não existe racismo no Brasil”, disse Roger na ocasião.

Autora da homenagem, Aladilce Souza reafirmou a importância da mobilização contra o racismo. “O racismo envergonha, limita e apequena a nossa humanidade”, discursou.

“O futebol é também um espaço político. O racismo também se manifesta e é perverso com jogadores, que na sua maioria são negros”, lembrou a legisladora, que enalteceu a atitude “corajosa” do treinador. “Como Zumbi dos Palmares, Roger se mantém firme na determinação de afirmar que existe racismo no Brasil e precisamos enfrentá-lo”.

O presidente do Esporte Clube Bahia, Guilherme Bellintani, esteve presente ao evento e falou da chegada do treinador porto-alegrense ao time. “A gente ligou para Roger para contratar um treinador, mas ganhou um cidadão de Salvador. Ouvimos muito que ele deu um passo atrás na carreira quando aceitou vir para o Bahia. Mas ele disse que deu um passo para um projeto diferente em sua vida. E ele foi mais além, abraçou causas sociais, e a gente viu o quanto o futebol pode ser transformador”, afirmou.

Roger Machado agradeceu pela honraria oferecida pela Casa e contou como foi a repercussão da sua entrevista. “Minha declaração foi fundamentada na minha história de vida, nas dificuldades, foi empoderada por estar nesse lugar, em Salvador, na Bahia, pertencendo a este clube que me acolheu e me motivou naquele manifesto de angústia”, narrou.

O técnico também afirmou que recebeu diversas manifestações de apoio e solidariedade após seu posicionamento. “A repercussão da minha fala, confesso que no primeiro momento, me assustou e me preocupou pela dimensão que foi levada e pela certeza de que a gente fala muito pouco desse assunto”, apontou.

O técnico afirmou ainda que seu manifesto foi um gesto que teve como dever enquanto cidadão negro. “Estar nesse lugar, para mim, já é um lugar de resistência. Ser treinador negro, na elite do futebol brasileiro em uma posição que constantemente eu percebo que indicam que é um lugar que eu não deveria estar”, disse.

Roger Machado descreveu também a mudança que teve em sua vida por meio do esporte. “No futebol, durante o período como atleta, eu me tornei branco. Porque me permitiu acesso a lugares que eu pouco tinha possibilidade de estar. O futebol como arte me abriu muito as portas. Quando adolescente, no bairro onde eu morava, quando ia sair para as festinhas de adolescência, era parado pela polícia e tinha que voltar para casa, porque me colocavam de barriga no chão, sujavam minha única camisa de fim de semana que eu tinha e eu não podia ir para a festa”, recordou.

A TARDE| FOTO: REPRODUÇÃO TV CÂMARA